terça-feira, 21 de junho de 2011


DESCOBRIMENTO DO RIO SÃO FRANCISCO
A Foz do Rio São Francisco foi encontrada pelos navegadores europeus André Gonçalves e Américo Vespúcio no dia 4 de outubro de 1501. Cumprindo uma tradição cristã, na época da descoberta do Brasil, o rio foi batizado com o nome do santo do dia. O rio foi naturalmente o caminho de acesso para ocupação dos 270 km entre a Foz e a Cachoeira, que recebeu o nome do primeiro europeu que chegou até ela - Paulo Afonso.
Por outros caminhos, o homem europeu chegou a outros trechos do São Francisco: quase cinqüenta anos após, em 29 de março de 1549, chegou ao Brasil a comitiva do primeiro governador geral - Tomé de Souza, e a partir desse ano iniciou-se a penetração dos desbravadores dos quais no Nordeste o mais importante foi Garcia D’Ávila, fundador da Casa de mesmo nome, e de cujo imóvel sede foram encontrados vestígios quando do início da construção do aproveitamento hidrelétrico de Sobradinho, na década de 70.
Garcia D’Ávila deslocou-se do litoral baiano até o Piauí, e entre esses dois pontos extremos ele chegou ao médio São Francisco, passando a praticar nas suas margens a pecuária extensiva.
O gado trazido nas caravelas era instalado em currais nos quais eram deixadas dez novilhas, um touro e um casal de escravos. Foi assim que surgiram as primeiras vilas nas margens do Rio São Francisco, e daí também se originou a denominação de Rio dos Currais, hoje substituída pelo apelido carinhoso dos barranqueiros - O Velho Chico.
Neste início do Século XXI, os 640.000 km² da bacia do Rio São Francisco abrigam 504 municípios e uma população de mais de treze milhões de brasileiros. Além do Velho Chico integram a bacia oitenta afluentes perenes e vinte e sete intermitentes.



REVITALIZAÇÃO E CONSERVAÇÃO
Mais de quatro séculos de exploração, em geral desordenada, da bacia do Velho Chico levaram os ambientalistas a considerá-lo atualmente um “rio doente”.
Para isto, contribuíram o desmatamento, a poluição e a alteração do regime hídrico natural, decorrente da construção de barragens.
O desmatamento indiscriminado realizado para obter a lenha que serviu como combustível e para “liberar” terras para agricultura e pecuária, provoca carreamento de terras férteis, assoreamento e regime torrencial nos períodos de alta pluviosidade.
A poluição das águas tem origem nos esgotos não tratados, resíduos industriais, mineração, adubos químicos e defensivos agrícolas.
Finalmente, as barragens alteraram o regime hídrico natural, e as necessidades de energia elétrica do Nordeste aumentaram as vazões mínimas naturais e reduziram os piques de cheias. Além disso as barragens provocam retenção de sedimentos no interior dos reservatórios.
Tudo isto despertou a consciência da necessidade de um intenso e efetivo programa de Revitalização e Conservação do Rio São Francisco, e o maior desafio deste programa de Revitalização e Conservação é, atingida a Revitalização, proporcionar o uso dos recursos naturais da bacia, de forma sustentável, proporcionando o desenvolvimento econômico e social dos seus habitantes, e de dezenas de milhões de nordestinos que se beneficiam da energia elétrica nela gerada. Simultaneamente deve ser garantida a disponibilidade dos recursos naturais da bacia, para beneficiarem as gerações futuras.
Não é possível buscar restaurar a bacia do Rio, para condições iguais àquelas existentes quando os colonizadores europeus encontraram pela primeira vez sua Foz, em 4 de outubro de 1501.
Como será a bacia do Velho Chico revitalizada e conservada daqui a duas gerações?



ECONOMIA DA BACIA HIDROGRÁFICAPela sua diversidade climática, extensão e características topográficas, a Bacia é dividida em quatro regiões: o Alto, Médio, Submédio e o Baixo São Francisco, nas quais podem ser caracterizadas três zonas biogeográficas distintas: a mata, a caatinga e os cerrados.
A exploração econômica da Bacia Hidrográfica do São Francisco começou no Século XVI com a plantação de cana-de-açúcar no Baixo São Francisco, a pecuária bovina no agreste e sertão e a extração mineral no Alto São Francisco.
No Século XIX, com a ocorrência de diversos fatores econômicos, tais como o desenvolvimento da produção cafeeira no sudeste, o esgotamento dos depósitos aluvionais de ouro, a queda do preço internacional do açúcar e o início das obras de infra-estrutura no litoral brasileiro, a economia da Bacia passou por uma fase de involução.
No início do Século XX, o Alto São Francisco procurou se integrar à economia do sudeste brasileiro, baseada na produção cafeeira e na industrialização ainda incipiente. As áreas do Médio e do Submédio São Francisco foram, então, fortemente afetadas, uma vez que ficaram isoladas, vivendo da agricultura de subsistência. Na região do Baixo São Francisco, procurou-se ampliar a área de produção de cana-de-açúcar.
A zona semi-árida, que, com o agreste, compreende 50% da área total da Bacia Hidrográfica do São Francisco, teve como principais atividades econômicas a pecuária, o algodão e as culturas de subsistência. A produção de algodão existiu até o final da década de 70 a meados dos anos 80 do século passado. Após esse período, as pequenas e médias cidades da Bacia começaram a receber contingentes populacionais sem qualificação profissional para atuarem nas fracas economias urbanas, que não têm, até hoje, infra-estrutura e atividades econômicas capazes de absorvê-los.
Os estudos para conhecimento da Bacia do São Francisco tiveram início no Brasil Império e prosseguiram até o presente, executados por várias entidades, representando hoje um enorme e importante cabedal de dados socio-econômicos e de informações técnicas e científicas sobre os seus recursos naturais.
Em 1945, o Governo Federal autorizou a criação da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco - CHESF, para o aproveitamento do rio na geração de energia elétrica. Três anos depois foi criada a Comissão do Vale do São Francisco - CVSF, nos moldes da Tennessee Valley Authority - TVA nos Estados Unidos, destinada a promover a valorização econômica da Bacia do São Francisco.
A CHESF, aproveitando as excepcionais condições naturais proporcionadas pelo desnível de Paulo Afonso, construiu as Usinas de Paulo Afonso I, II e III. Em 1955 foram inauguradas as três primeiras unidades de Paulo Afonso I. Posteriormente a Comissão do Vale do São Francisco, CVSF, construiu em trecho mineiro do São Francisco, a Barragem de Três Marias cuja Usina foi inaugurada em 1961. A partir da década de 70, objetivando regularizar as vazões do São Francisco e aumentar a geração de energia elétrica, a CHESF construiu a Barragem e Hidrelétrica de Moxotó e, posteriormente, as Barragens e Hidrelétricas de Sobradinho, Paulo Afonso IV, Itaparica e Xingó.
Além dos benefícios gerados pela produção de energia elétrica na Bacia do São Francisco, a injeção de recursos na economia local durante a construção das usinas, proporcionou o surgimento e desenvolvimento de cidades na região dos aproveitamentos hidrelétricos, as quais têm desempenhado um papel de pólo regional, a exemplo da cidade de Paulo Afonso na Bahia.
Os anos 70 do século passado foram, também, de grandes mudanças no que tange ao aproveitamento agrícola das zonas dos cerrados da Bacia com a chegada de milhares de agricultores do sul do país, atraídos pela grande disponibilidade de terras, a preços baixos. Em especial, no Oeste baiano, a agricultura vem crescendo a taxas extremamente altas produzindo-se arroz, milho, soja, algodão e frutas, com o uso de tecnologias avançadas. Essa produção fez surgir agroindústrias na região. Tais fronteiras econômicas vêm se deslocando para o Médio São Francisco, inclusive com organização cooperativa, tornando a econômia mais dinâmica.
A agricultura irrigada teve um crescimento significativo a partir dos anos 80, em especial após a criação do Programa de Irrigação do Nordeste - PROINE. Na Bacia, estão identificados cerca de 3.000.000 ha potencialmente irrigáveis dos quais cerca de 800.000 ha já foram estudados, projetados ou estão em operação. De acordo com estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA


EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DE PAULO AFONSOEuclides Batista Filho
A conjuração pela emancipação de Paulo Afonso começou efetivamente em março de 1952, quando o pernambucano Abel Barbosa e Silva, chefe de escotei-ros, convidou alguns amigos para uma secretíssima reunião. Ao ser convidada, a comerciante Risalva Toledo questionou Abel sobre o motivo do encontro, recebendo a resposta de que somente ficaria sabendo quando comparecesse à reunião marcada para a residência do comerciante Luiz Inocêncio de Lima, às dez horas daquela noite. A assembléia histórica aconteceu na penumbra silenciosa da cozinha do Sr. Luiz Inocêncio, onde um candeeiro substituía as lâmpadas apagadas. Lá estavam então dona Risalva Toledo, Luiz Inocêncio, Abel Barbosa (conhecido como Chefe Abel), João Vicente Ferreira (conhecido como João Sapateiro), João Francisco da Silva (conhecido como João Marceneiro), Antônio Patrício, Francisco Domingos, Altino Gomes (cunhado de Zé Lima), José Aquilino, José Neto, Antônio Neto e Manoel Neto. O sigilo tinha que ser total. Paulo Afonso pertencia a Glória e sua emancipação política contrariava interesses da pequena cidade que não queria perder os impostos do jovem e rico distrito. Como a independência contrariava também interesses da Chesf, nossos heróis corriam muitos riscos, inclusive de vida. Conta Dona Risalva: “Chefe Abel por exemplo, foi abordado por um pistoleiro de aluguel quando comprava ingresso na bilheteria do cinema (atual Caixa Econômica). Estava agarrado com a arma do bandido, em luta corporal, quando o adolescente Josias, seu afilhado e irmão de Xerém, estando no salão de sinuca ao lado, correu em seu auxílio com o taco de jogo. Desferindo violentíssimo golpe na cara do facínora fraturou-lhe o nariz, na maior tacada de sua vida. Aquele não seria o único atentado e todo cuidado seria pouco “.
Como líder do grupo, Abel advertia sobre os perigos a que todos estavam sujeitos, ouvindo dos amigos o compromisso de total e irrestrito apôio à nobre causa, acontecesse o que acontecesse. Assim, aos cochichos e na semi-escuridão, nossos conspiradores lançavam a semente da nossa liberdade, trabalhando para que germinasse. Como parte desse trabalho, Dona Risalva contactava secretamente as mulheres da Vila Poty, para que elas conquistassem a adesão dos maridos, fazendo o movimento crescer em número e importância. As reuniões continuavam acontecendo sob o mais absoluto segredo e nos locais mais diversificados, com o número de simpatizantes aumentando a cada dia. Contudo, alguns adeptos sofriam as mais diversas represálias, inclusive perdendo seus empregos na Chesf, como Zezito do Fórum, Gilberto Leal, etc. Porém, nada os fazia recuar.
Em 1º de maio de 1954, dia do trabalhador, Abel Barbosa, então vereador de Glória, em palanque armado na Rua da Frente (atual Posto Oásis) lançou publicamente a campanha pela emancipação política de Paulo Afonso. Diz Dona Risalva: “A luta cresceu, a perseguição também, mas o desejo de ver Paulo Afonso livre nos dava mais garra e disposição. As pressões aumentavam, pois os adversários viam em nós uma grave ameaça aos seus interesses. Quanto mais faziam oposição, mais trabalhávamos com impressionante coragem”.
Em abril de 1955, início de legislatura, o vereador Abel apresentou na Câmara de Glória a proposta de desmembramento de Paulo Afonso. Como naquela casa a matéria era apoiada apenas por Abel e pelo vereador Moisés Pereira, o obstáculo era intransponível. Como a luta prosseguia, no segundo semestre de 1956 o vereador Abel conseguiu o valiosíssimo apôio do vereador Manoel Moura, líder do prefeito de Glória, que por sua vez convenceu outros vereadores, sendo o projeto de emancipação aprovado em 10/10/1956. Narra Antônio Galdino: “No plenário da câmara municipal de Glória, debates, apartes e questões de ordem. Na ordem do dia projeto-de-lei do vereador Abel Barbosa, propondo a separação política de Paulo Afonso. Várias vezes, no calor das discussões, madrugada adentro, parava-se tudo para socorrer o vereador Moisés Pereira que, muito doente, fez questão de estar presente na discussão da importante matéria. No final do debate o seu voto foi decisivo, completando o número necessário para que Paulo Afonso tivesse vida própria. A centenária Glória perdia seu mais importante distrito”. O vereador Moisés Pereira faleceria poucos dias depois. O projeto foi encaminhado à Assembléia Legislativa em Salvador, onde foi apoiado pelos deputados Otávio Drumond e Clemens Sampaio. Enfim, depois de cumpridas todas as formalidades legais, o governador Antônio Balbino de Carvalho Filho sancionou a Lei nº 1.120 em 28/07/1958, que tornou Paulo Afonso independente.
A notícia da emancipação estourou como uma bomba de indescritível alegria. Em palanque armando no mesmo local do lançamento oficial em 1954, aguardava-se o Chefe Abel que vinha de Salvador. Enorme caravana dirigiu-se ao povoado Riacho para receber o libertador de Paulo Afonso, que, sobre um jipe aberto, entrou na CIDADE ovacionado e acenando com o Diário Oficial. Ao subir no palanque que o aguardava, com a voz embargada por fortíssima emoção, apenas conseguiu dizer: “Pauloafonsinos, eis o meu e o vosso sonho de liberdade realizado”. Inflamados oradores fizeram apaixonados discursos, dentre os quais, José Rudival de Menezes e José Freire (do abrigo).
Muito emocionada, como se um filme estivesse passando em sua memória, Dona Risalva Toledo, heroína da nossa liberdade, afirma hoje: “Somente Deus pode avaliar o tamanho da alegria que sentimos todos, especialmente eu. Palavras não expressam... “.


OS PRIMEIROS PASSOS DE PAULO AFONSO
Afrânio de Carvalho
Como se o destino conspiras-se para facilitar-me o conhecimento da cachoeira de Paulo Afonso, Landulfo Alves, então governador da Bahia, sempre me convidava para excursões ao interior. De tal modo as visitas calaram no meu espírito que me induziram a pensar obsessivamente no aproveitamento da cachoeira, com uma grande usina hidrelétrica que fornecesse energia ao nordeste, pois seria o meio mais acertado de erradicar a miséria ali reinante. A cachoeira costumava ser invocada pelo espetáculo de grandiosidade e beleza por poetas, escritores, geógrafos, pintores e homens públicos. Delmiro Gouveia realizou em 1913 um pequeno aproveitamento da cachoeira, com uma usina de 1.500 HP, para servir a sua fábrica de linhas de coser na vizinha localidade de Pedra, Alagoas. A obra foi realizada mediante concessão do Estado de Alagoas, pelo Decreto nº 520 de 12/08/1911. O Imperador Dom Pedro II foi conhecer a cachoeira em 1859, pernoitando no local chamado Limpo do Imperador, quando fez anotações no seu diário, que está no Museu Imperial, Petrópolis, Rio de Janeiro.
O desequilíbrio entre o nordeste e o sul, o abismo que separava um do outro, tornava a construção da hidrelétrica imperiosa e premente. Maior vulto e significado a cachoeira assumiu a meus olhos quando me coube o ensejo de medi-la na qualidade de presidente da Subcomissão de Abastecimento da Bahia, em 1943. Após a deposição de Getúlio Vargas em 29/10/1945 e a interinidade de José Linhares, assumia o poder o Presidente Dutra. Quando Daniel de Carvalho, seu Ministro da Agricultura, me convidou para chefe de seu gabinete, exultei com a possibilidade de incluir no programa o aproveitamento prioritário da cachoeira de Paulo Afonso. A energia que ali se gerasse seria o instrumento para redimir o nordeste e dissipar uma desigualdade profundamente injusta para a sua gente. Foi então que tomei conhecimento de que já existiam dois decretos que objetivavam a mesma finalidade, expedidos no governo Vargas, mas que, com sua deposição, haviam ficado em ponto morto. O aproveitamento de Paulo Afonso havia sido combatido tenazmente pelo Ministro Souza Costa, que afirmava que gastar dinheiro alí seria desperdício.
O processo foi então guardado pelo Dr. Sebastião de Santana Silva, auxiliar do Ministro Apolônio Sales. Também o economista Eugênio Gudin visitara Dutra para dizer-lhe que a construção seria uma loucura, pois, entre outras razões, sequer haveria mercado. Nesse ano (1948) Daniel de Carvalho, Ministro da Agricultura, convenceu Dutra contra a opinião de Gudin. A Chesf havia sido criada em 1945 por Getúlio Vargas, mas só em 1948 Dutra iniciou a obra. A decisão de Dutra de construir Pulo Afonso foi um grande momento da história do Brasil. A conspiração dos derrotistas e negativistas nos gabinetes alastrou-se para combater a obra sob os mais variados pretextos, mas a oposição de hoje será o aplauso de amanhã.
O Ministro Daniel de Carvalho levou ao Presidente Dutra uma lista de três nomes, dentre os quais deveria ser escolhido o organizador e futuro presidente da companhia. Foi escolhido o Engº. Antônio José Alves de Souza, que tinha uma longa tradição de inteligência, cultura e serviços, sendo respeitado tanto pelo seu caráter como pela competência profissional. Engenheiro civil e de minas, formado pela Escola de Minas de Ouro Preto, estava ligado a Paulo Afonso desde 1921, quando, com os engenheiros Jorge Menezes Werneck, Jaime Martins de Souza, Mário Barbosa de Moura e Mengálvio da Silva Rodrigues, fizera o levantamento topográfico da área, por designação do ministro Simões Lopes, no Governo de Epitássio Pessoa. Estava talhado para a missão. Pela Portaria nº 553 de 02/10/47 o Ministro Daniel encarregou Alves de Souza de organizar a grande empresa. Graças ao governador baiano Otávio Mangabeira, a Luiz Viana Filho, Clemente Mariani, Juracy Magalhães e Pereira Lira, a Bahia e a Paraíba foram incluídas no programa. O lançamento oficial da abertura da subscrição pública das ações preferenciais da Companhia foi feito pelo Presidente Dutra, no Palácio do Catete, em 01/12/47.
Alves de Souza não teve dificuldade em formar a sua diretoria. Convidou o General Carlos Berenhauser Júnior, engenheiro eletricista, para Diretor Comercial; Eng.º Adozindo Magalhães de Oliveira, ex-colega da Divisão de Águas, para Diretor Administrativo; e o Eng.º Otávio Marcondes Ferraz para Diretor Técnico. Como Consultor Jurídico, eu, Afrânio de Carvalho. Como o estatuto da Chesf, constituída em assembléia em 15/03/1948, fixara o Rio de Janeiro como seu domicílio, após as primeiras reuniões em salas emprestadas a empresa comprou o 15º andar do edifício 134 da Rua Visconde de Inhaúma, centro do Rio, onde esteve durante 27 anos, até a mudança para Recife em 1975. Com o falecimento do Diretor Administrativo, Eng.º Adozindo Magalhães, em 14/06/53, fui nomeado seu substituto.
De início a Diretoria Técnica de Marcondes Ferraz ficou na sede, onde contava com a assessoria de Domingos Marchetti, além dos engenheiros Gentil Norberto, José Vilela e Júlio Miguel de Freitas. Em 1949 a diretoria técnica mudou-se para Paulo Afonso com todos os engenheiros. Com o tempo, outros engenheiros foram incorporando o quadro: Ernani Gusmão, Othon Soares, Dermeval Rezende, Hilton Fiúza de Castro, Hermínio Keer, Hélio Gadelha de Abreu, Nédio Lopes Marques.
O Presidente Alves de Souza dividia o seu tempo entre o Rio e Paulo Afonso, onde sua presença motivava os trabalhadores, levantava os ânimos e alegrava todos os colaboradores, dos engenheiros aos operários, com os quais sempre manteve estreito contato pessoal, até sua morte em 18/12/61,em Paulo Afonso, ficando o seu coração sepultado ao pé do seu busto no Jardim Belvedere, a seu pedido. A escrivã Maria de Lourdes Martins, do Cartório de Registro Civil de Paulo Afonso, lavrou a certidão de óbito n.º 309, folha 155, livro 6, sendo Alves de Souza sepultado no Cemitério São João Batista, Botafogo, Rio de Janeiro.
Por sua vez, Marcondes Ferraz, indo residir em Paulo Afonso com sua senhora Dona Marieta Ferraz, dera um magnífico exemplo, estimulando engenheiros, médicos, advogados, técnicos e professores a fazerem o mesmo, imprimindo unidade e segurança, contribuindo para que alí se formasse uma comunidade impregnada de espírito familiar. Para exercer funções de “prefeito” do acampamento, Dr. Adozindo designou seu próprio assistente Dr. José Gomes Barbosa, depois substituído pelo Dr. Sílvio Quintela.
A seleção rigorosa dos dirigentes, a boa vontade dos dirigidos, o relacionamento expontâneo entre todos, compuseram um ambiente propício à colaboração e ao rápido progresso das obras. O trabalho era feito de coração tranqüilo e sorriso nos lábios. Enquanto o Eng.º Marchetti supervisionava as escavações dos túneis, os engenheiros Gentil Norberto, Roberto Montenegro e Reginaldo Sarcinelli eram responsáveis pelas ensecadeiras. Se o laboratório de modelo reduzido desempenhou papel tão decisivo na solução de problemas fluviais, isso se deve ao gênio do Engº André Balança. Na construção das subestações, a competência rara doEngº Paavo Nurmi de Vicenzi. Com o aval da aeronáutica fizemos um campo de aviação, onde pousavam aviões de uma empresa comercial e estacionavam aeronaves da Chesf, a princípio apenas um Beechcraft bimotor e um helicóptero Bell, cujo serviço de aviação foi entregue ao coronel-aviador Humberto Aguiar e ao piloto paulista Carlos Alberto Alves, depois vereador de Paulo Afonso.
A Diretoria Comercial se projetou devido a inteligência e retidão de Berenhauser Júnior, que se cercou de auxiliares capazes como Álvaro de Carvalho, Pimentel Tourinho e Euclides Ribeiro. Os grandes equipamentos eram descarregados nos portos de Recife e Salvador, seguindo em carretas para Paulo Afonso. Os milhares de sacos de cimento iam de trem até Arcoverde e de caminhão até a obra. Milhares de pessoas chegavam em Paulo Afonso em busca de pão e trabalho, construindo ao lado do acampamento um grupo numeroso de casebres cobertos com sacos vazios do cimento Poty usado nas obras, cujo núcleo veio a chamar-se Vila Poty. As redes de dormir eram toda a mobília. Na Poty a companhia construiu banheiros públicos, chafarizes, posto médico, e admitiu os homens necessários, que aprendiam facilmente o serviço e revesavam-se de dia e de noite. Ali estava o sertanejo forte mencionado por Euclides da Cunha. Na obra, o sotaque cantado do nordestino dava um toque original e romântico ao trabalho que faziam. Suportando o calor abrasador, labutavam sorrindo e cantando. Ordeiros e disciplinados, formavam um grupo peculiar no agregado brasileiro. Foi, sem dúvida, o magnífico contingente humano dos nordestinos, perfurando o granito e operando máquinas, que permitiu a vitória final.
Durante a construção, o episódio mais importante foi o fechamento do braço principal do rio, com ensecadeiras, treliças e pedras enrrocadas. O desfecho provocou o mais vivo interesse dos operários, funcionários e de outros nordestinos que afluíram às margens do rio. Até gente de outras cidades, na expectativa de ver o rio fechado. Fechadas as comportas, o Velho Chico estava domado pela astúcia do engenheiro brasileiro. Gritos de alegria e foguetes festivos tornaram aquele momento deveras emocionante e inesquecível, quando um entusiasmado espectador atravessou a pé o leito seco do rio, empunhando a bandeira nacional, em 19/07/54. Sessenta dias após, iniciou-se o enchimento do reservatório para provas de funcionamento da usina, que logo entrou em operação comercial, sendo inaugurada em 15/01/55 pelo Presidente João Café Filho, sucessor de Getúlio Vargas, que se suicidara quatro meses antes.
No acampamento, as modernas casas de alvenaria substituíam a caatinga. Casas para famílias, alojamentos para solteiros, casa de hóspedes, casa da diretoria, hospital, igreja, armazém, restaurante, escolas e clubes sociais. Um oásis sem similar no seio do sertão áspero. Vila Operária, Vila Alves de Souza, Bairro General Dutra. Ao lado do acampamento, a Vila Poty. Pioneiros que formavam a enorme família chesfiana, pessoas vindas dos mais diferentes rincões do país e do mundo, as profissões mais diversas, de todas as idades e religiões, com forte espírito de solidariedade inspirado na grandeza da obra que executavam. Num ambiente de camaradagem, todos amavam apaixonadamente aquele trabalho. Entre tantos outros profissionais, os professores responsáveis pela instrução dos milhares de filhos dos construtores de Paulo Afonso: Dilon Alves,CIáudio Melo, Antonieta Morais, Neide Cerqueira Lima, Ana Freitas, Glícia de Morais, Elvira Rocha, Iracy Santiago, Neide Jatobá, Zilá de Castro, Amanda Morais, Jandira Ramos, Maria Amélia. Ezilda Goiana, Zélia Bandeira, Conceição Siqueira, Eunice Macêdo, etc. No meio de todos, a figura ímpar de Alves de Souza, verdadeiro agremiador e condutor de homens, espírito impregnado de fé e entusiasmo. O Hospital Nair Alves de Souza (homenagem à esposa do presidente), que tinha a responsabilidade de atender aos chesfianos, de repente viu-se sob a premência de acudir numerosas pessoas estranhas, vindas até de outras cidades, atraídas pela fama que logo se espalhou. Não podendo enxotar aqueles carentes, os socorria gratuitamente. O criador e diretor do hospital, Dr. Lourival Burgos Muccini, hábil cirurgião, administrador metódico, tinha em sua equipe os médicos Fernando Freitas, Augusto de Sá Brito, José Elói Medeiros, Militão Cézar Oliveira, Edson Teixeira Barbosa (depois prefeito) e a farmacêutica Nilza Alves.
A construção da usina despertou a atenção do povo por toda parte, que via, pela primeira vez, realizar-se em solo nordestino empreendimento de tão extraordinário vulto. Poucas obras ganharam tanto interesse no Brasil inteiro, como as de Paulo Afonso. Os visitantes chegavam sem cessar, vindos de todas as partes, de ônibus, automóveis e aviões. Na sala dos visitantes ouviam explicações do projeto da hidrelétrica e seguiam com um guia para o imenso canteiro de obras. A comemoração do decênio da Companhia em 15/03/58 foi uma gigante festa íntima, que comemorou os resultados obtidos nos dez anos de intenso e fecundo trabalho, resultados que justificavam a euforia da comemoração. Paulo Afonso deixara de ser uma porção desértica da caatinga, tornando-se uma comunidade civilizada. Um magnífico monumento foi erigido ao lado da barragem oeste, o Parque Belvedere, em homenagem à diretoria realizadora da grande obra. Na programação da festa, missa campal no obelisco, churrasco para milhares de pessoas no Clube Operário, jantar no CPA, bailes em ambos os clubes, em cujas comemorações discursaram Dr. José Gomes Barbosa, Dr. Ebenézer Gueiros, Dr. Paulo Parísio, Dr. Waldemar de Carvalho, Dr. Carlos Berenhauser, Dr. Alves de Souza, Dr. Sílvio Quintela, Dr. Marcondes Ferraz, Dr. Hélio Gadelha, Sr. Pimentel Tourinho, Dr. Roberto Montenegro, Sr. José Francisco Oliveira Diniz, Sr. Olímpio Rodrigues dos Santos e Dr. Afrânio de Carvalho.
Paulo Afonso deixava de ser um sonho utópico, abstrato, para ser a redenção do nordeste brasileiro, realidade concreta e incontestável.
No monumento do Parque Belvedere estão gravadas para sempre as palavras do Dr. Sílvio Quintela:

“A FÉ, A TENACIDADE, O SACRIFÍCIO E A UNIÃO TORNARAM REALIDADE O ANSEIO DE VÁRIAS GERAÇÕES”.

NOTA: O Dr. Afrânio de Carvalho ingressou no Chesf no início de suas atividades em 1948, como Consultor Jurídico. Com o falecimento, em 1953, do Dr. Adozindo Magalhães, primeiro Diretor Administrativo da companhia, foi promovido a seu substituto. Em 1961, por razões políticas, pediu ao presidente Jânio Quadros exoneração do cargo de diretor, voltando à Consultoria Jurídica, onde ficou até aposentar-se em 31/12/74. Dedicou 26 anos de sua vida à epopéia de Paulo Afonso.